sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quando me vi, feminista.

Quando eu tinha lá meus dezesseis anos ouvi uma professora desabafando que casou-se porque foi pedida em casamento. What? Aquilo foi um grande choque pra mim, afinal, mulheres casam por amor ou por qualquer outro sentimento lindo e belo. Mas não era isso que eu estava prestes a enxergar no mundo.
Como um estalo comecei a reparar em tudo a minha volta e nada me agradava: minha prima mais velha sendo reprimida porque desfez o noivado, mulheres com 23 anos em diante sendo pressionadas ao casamento, ou você casa logo ou nunca mais irá casar, namorados desfazendo dos planos de suas companheiras, etc, etc.

Outros pontos: mulher tem que mudar pelo homem, mudar de cidade se precisar e quem sabe até de religião. Mulheres, mulheres, mulheres; este é o campo maleável para a "coisa" dar certo. "Coisa" no sentido relacionamento, trabalho, estudos e vida particular. Cheguei a ouvir que por não ser Maria-Dona-de-Casa-Prendada-que-Cospe-um-Bolo-Pronto-a-Cada-Segundo não era boa o bastante. Sem meias palavras: teria que saber cozinhar grandes banquetes de comilança para provar que era a nora perfeita e aceitável.
E sabe qual é o cumulo? Nós mulheres ouvir de outra mulher: "Tem que aprender a fazer o prato X que fulano de tal ama". EU vou responder qual prato que vou preparar para seu filho: $#@#$@#$@$#@$!

Ao me sentir a bosta do cavalo do ator figurante de um filme de quinta categoria, senti florescer as seguintes ideias: Eu não quero isso para mim - Eu não quero ser dona de casa - Eu quero ser realizada profissionalmente e receber o R$ que é de direito - eu não quero casar com você - eu não quero casar - eu não quero ter filhos - eu quero que respeite os meus sonhos - eu não quero mudar de religião por você - eu não quero servir o seu prato de comida - eu não quero arrumar a sua cama porque estereotiparam que EU MULHER tenho que arrumar - eu não que sexo hoje - eu não quero fazer isso e nem aquilo. Eu quero ser eu, sem criticas e sem preconceitos...

Eu quero viajar, estudar, evoluir e crescer. Eu não quero alguém no meu calcanhar me dizendo o que devo ou não fazer, o que devo vestir e o quanto eu deve comer, falando que meu corpo não é meu e que minhas coisas não são mais minhas. "São nossas". NÃO! Não são nossas, não minhas porra! Este sentimento de possessão que esgana, me tortura.

E foi mais ou menos assim que eu me percebi feminista. Isso mesmo: FE-MI-NIS-TA! Caiu a ficha que eu não aceitava nada do que estavam querendo me impor. Esta coisa de eterna servidão ao marido, namorado e pai só porque eles são homens. - Amor, leva minhas roupas sujas para o cesto? (falou o cara que esta com a cara e bunda pra cima). - Carol, pega um pano para teu pai apoiar o prato de comida no colo. (Aiai mãe, ele pega um pano se quiser afinal, não é nenhuma criança para não perceber que comida pronta é comida quente). - Me ajuda aqui?! (a pegar um copo e um prato? WTF).

Existe uma bolha existencial criada por todas as mães do passado: Homens nasceram para ser servidos e ajudados. Vejo isso direto com o meu namorado, com o meu pai, com meu avô, com os namorados de minhas amigas, com os pais das minhas amigas e por ai vai. É quase uma incapacidade congênita de fazer o que precisa ser feito quando envolve-se CASA. Coisas DOMÉSTICAS.

Por fim, tudo que escrevi acima foram situações que aconteceram na minha adolescência do qual me incomodavam muito. E isto me fez perceber que eu realmente acreditada em igualdade/liberdade e principalmente: EU tenho este direito. Se eu posso juntar a minha roupa suja no banheiro, porque o meu pai não?

Para explicar mais sobre FEMINISMO, escolhi este texto que segue abaixo. Foi publicado em 2013 e esclarece alguns pontos cruciais.


lugardemulher.com.br


É assustadora a quantidade de gente que não sabe o que é feminismo. Ninguém tem a obrigação de saber, é claro, mas a partir do momento em que você decide opinar sobre um assunto, é de bom tom saber do que se trata.  As pessoas são "contra" o feminismo sem sequer saber o que significa.
É comum escutar:
"Não sou feminista, sou feminina",
"Não sou feminista e nem machista",
"Não sou feminista e nem machista, sou humanista",
"Não sou feminista, acho que todos deveriam ser tratados igualmente e ter os mesmos direitos".
Bom, vamos lá.
Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais.
Então se você diz "não sou feminista, acho que todos deveriam ser tratados igualmente e ter os mesmos direitos" você está dizendo, exatamente: "não sou feminista, mas sou feminista". E se você se diz humanista, bom, acredito que saiba então que o humanismo é uma filosofia moral baseada na razão humana e na ética, que coloca o ser humano acima do sobrenatural, de deuses, de dogmas religiosos, da pseudociência e das superstições e que não tem nada a ver com o assunto.
Existe essa grande falha lógica que é o sujeito achar que você tem que ser contra uma coisa pra ser a favor de outra; neste caso, "contra" os homens para ser "a favor" das mulheres. O feminismo não luta contra os homens, e sim contra o supracitado sistema de dominação, que, veja só, privilegia os homens e foi criado por... homens. Fica clara a diferença entre lutar contra um sistema e lutar contra todo um gênero?
Feminismo não tem nada a ver com deixar de usar batom, salto ou dar de quatro. Ninguém vai confiscar sua carteirinha de feminista se você usar rímel. Mas te abre para a possibilidade de só usar maquiagem quando quiser, não porque tem que obrigatoriamente estar impecável e linda todos os dias a enfeitar o mundo.
Feminismo não tem nada a ver com ser inimiga dos homens. É claro que existem feministas misândricas, mas você não é obrigada a ser uma delas.
Feminismo não tem nada a ver com esconder o corpo; muito pelo contrário, exigimos o direito de andar com a roupa que bem entendermos sem assédio ou constrangimentos. Taí a Marcha das Vadias que não me deixa mentir.
Feminismo não tem nada a ver com não ter filhos, e sim com a escolha de como e quando esses filhos virão, e se virão.
Feminismo não tem nada a ver com não ser feminina. E nem com ser.
Feminismo tem a ver com liberdade, com eu, você, elas e eles podermos todos viver e ser sem ninguém dando pitaco em como devemos nos portar, como devemos nos vestir, o que devemos dizer, do que devemos fazer com nossos corpos.
Outra coisa importante: nem todas as feministas estão de acordo a respeito de todos os tópicos. Cada um constrói seu feminismo. Como disse a Tavi Gevinson, a jovem editora da RookieMag, em uma palestra do TEDxTeen, o feminismo não é um livro de regras, mas uma discussão, uma conversa, um processo. E cada um tem o seu. Feminismo, caros, não é uma seita que reprime e excomunga quem quebra seus preceitos.
Vale sempre lembrar que o mundo machista também oprime os homens com esse negócio de que eles têm que ser os provedores, que eles têm que ser durões, que não podem chorar, que não podem demonstrar nenhuma característica atribuída ao feminino porque isso é considerado uma fraqueza - já que as mulheres são consideradas mais fracas, logo, inferiores. Gay é "xingamento" porque ser gay é ser um homem mulherzinha. Gente, não dá mais isso, 2013, sabe? Chega de reproduzir conceitos sem sequer parar para pensar neles.
Há um teste simples pra saber se você é uma pessoa que se identifica com o feminismo.
1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?
6. você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
10. você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?
Respondeu sim pra tudo?
Está confortável na cadeira?
Você é pró-feminismo, ou até... Feminista! Uau!
Você não precisa ser ativista para ser feminista. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se você acredita na igualdade de direitos entre homens e mulheres, você é feminista.
As pessoas confundem feminismo com um monte de coisas. As pessoas têm medo da palavra FEMINISMO.
Feminismo. Feminista. Feminismo. Feminista. FE-MI-NIS-MO.
Feminismo é sobre liberdade.
E é difícil ser realmente livre neste mundo.
Postar um comentário